. . . . Escrevendo uma Carta de Amor para meu pai - Mania de Organizar e Viver Saudável

09/03/2017

Escrevendo uma Carta de Amor para meu pai


Recebi o desafio de escrever uma carta de amor para meu pai, que já se foi. Pensei nele, e coincidentemente, dia 10 de março, seria seu aniversário. Estaria completando 80 anos de idade. Infelizmente, só viveu até os 54 anos e morreu por insuficiência renal crônica.
É só a simulação de como seria uma carta para ele, se fosse possível que ele a lesse.

Meu pai
1937 - 1991

Oi pai,

Sinto muito sua falta. Gostaria de ter tido sua companhia nos últimos 25 anos. Resolvi então lhe escrever essa carta. Sabe pai, tanta coisa aconteceu...
Uma pena não ter conhecido minha filha, sua neta. Sei que ela curtiria muito você como avô. Lembro do carinho que teve com a primeira e única neta que conheceu. Aliás, ela se casou recentemente. A segunda neta, que estava na barriga da mãe quando você se foi, também já casou. Hoje alguns de seus netos estão graduados, pós-graduados e outros estão a caminho. Seriam motivo de orgulho para o avô. Você teve no total, 9 netos: 5 meninas e 4 meninos.
Você se foi em um período que eu estava começando a ter uma nova vida, estava recém-casada. Não me esqueço do quanto tremia ao adentrar a igreja comigo e eu tentava te acalmar. Fui a única de minhas irmãs a ter esse privilégio, ter você me levando ao altar. Estava muito nervoso e emocionado. Sei o quanto meu casamento te deixou feliz, porque sei que amou meu marido desde o primeiro momento. Se tornou seu amigo rapidamente. O sentimento de amor da parte dele, foi recíproco.

Quando tinha 8 anos de idade, soube que você estava doente. Vocês tinham comprado um terreno com uma casinha nos fundos. O sonho era construir uma casa na frente, onde criariam seus filhos, que na época já somavam quatro. Por não conseguir continuar trabalhando no emprego que permitiria a realização desse sonho, teve que devolver o terreno e a casa. Que tristeza! Voltamos a morar de aluguel e o sonho nunca se realizou.
Você tinha na época, somente 34 anos. Seu estado de saúde só piorou ao longo dos anos seguintes, mas nunca, mesmo doente, deixou de trabalhar para termos onde morar.
A insuficiência renal crônica que teve, lhe rendeu três cirurgias para remover pedras de um único rim que funcionava. Até hoje me pergunto: qual a probabilidade de alguém ter um rim mirrado (encolhido) e no outro um problema tão sério de disfunção? Mas, você teve, infelizmente. Se o problema surgisse hoje, talvez você tivesse um tratamento adequado.
Lembro-me dos últimos anos de sofrimento, fazendo hemodiálise duas vezes por semana. Você ia sozinho ao hospital, porque estávamos trabalhando e/ou estudando. Muitas vezes passou mal e chegava em casa quase transparente, sem cor, semimorto. Era triste ver seu sofrimento. Infelizmente o transplante de rim não aconteceu a tempo e Deus achou que era a hora de te levar.

Gostaria de te agradecer. Foi você quem me estimulou sempre a estudar para nunca ter que passar dificuldades como havíamos passado em casa. Se precisasse trabalhar, eu teria uma formação. Comprava nosso material escolar com seu décimo terceiro e deixava só os livros para depois. Era uma preocupação sua que estudássemos. Tinha isso como prioridade.
 Nunca nada nos faltou, porque sei que Deus cuidou de nós e outras pessoas também ajudaram. Mas, não posso tirar o seu mérito quanto ao esforço que sempre fez para sustentar nossa família. Deixou um bom exemplo para nós como filhos. Sempre foi batalhador e trabalhador. 
Lembro nos finais de ano, das caixas de guaraná que comprava (tinha uma coleção de garrafas retornáveis) e da caixa de uva que nunca faltava. As coxinhas enormes, não podiam faltar também e era assim a nossa festa. Como crianças, nos satisfazíamos nessa simplicidade.
No dia a dia, gostava de comer a comida sempre com farinha. Se não tinha na hora do almoço ou jantar, pedia para alguém ir comprar. 
Minha gratidão a Deus por ter tido um pai tão esforçado e responsável. Nunca fugiu à luta até o final de sua vida.

Sei de sua história de vida, o quanto sofreu desde pequeno. Perdeu o pai aos 9 anos e teve que conviver com um padrasto violento. Perdeu junto com seus dois irmãos, a herança deixada pelo pai, por causa dessa pessoa sem escrúpulos e que também era viciada em jogos. Sei que não era uma pessoa amorosa, porque nunca recebeu amor. Hoje até entendo esse lado de sua personalidade.
Admiro a flexibilidade que tinha em relação ao trabalho. Você foi motorista de caminhão, bancário, garçom, pintor de paredes, pipoqueiro, fotógrafo, vendedor ambulante, etc. Sempre encontrava algo para fazer mesmo doente. 

Lembro que sempre gostou de música e instrumentos. Havia cantado no coral da igreja uma certa época. Nós, os filhos, acho que os sete, herdamos sua veia musical, mas somente na voz. Admirava a facilidade com que conseguia tocar instrumentos que lhe chegavam às mãos. Lembro da gaita, do acordeom e do violão. Acho que chegou a tocar instrumento de sopro também. Sua veia musical em relação aos instrumentos, a maioria de nós não herdou. Até aprendi um pouco de piano na adolescência e você me incentivava, mas não fui em frente. Somente um de nós toca violão e não sou eu porque nunca me interessei.
Ah, e a Matemática? Era admirável! Apesar de ter estudado pouco, sabia fazer cálculos de cabeça como ninguém. Não precisava de calculadora. Até aprendi um pouco esses cálculos de cabeça, mas nunca o superei.

Bem, vou ficando por aqui. Gostaria que estivesse aqui para comemorarmos essa data. Você se foi e deve estar muito bem. Infelizmente, não poderei dizer pessoalmente o quanto te amei e amo as lembranças que deixou. Nem todos têm esse privilégio, de ter um pai-herói, como eu tive.
Te amei como filha, mas acho que quase não te falei isso. Um dia nos encontraremos e quero te abraçar muito. Me aguarde! Não sei se demoro, porque ninguém sabe o dia de amanhã.
Ah, esqueci de te contar que a mãe continua por aqui. Bem, você deve saber, porque ela ainda não te encontrou.
Beijos. Fica com Deus!


Com muito amor, de sua filha, Raquel.


“Vós não tendes o poder de saber o que acontecerá no dia de amanhã.
Que é a vossa vida? Sois, simplesmente, como a neblina
que aparece por algum tempo e logo se dissipa.”
Bíblia Sagrada



Este post participa da Blogagem Coletiva Semanal #52semanasdegratidão de Elaine Gaspareto, cujo objetivo é valorizar e compartilhar nossas pequenas e grandes alegrias... nossas vivências e aprendizados.




17 comentários:

Ipsis Litteris disse...

Que linda carta Quel, para o seu pai!
Também perdi o meu, e sei o como é duro viver sem esta referencia.O meu morreu com 40 anos, eu na época tinha 7 anos.
Sempre fica um vazio não é mesmo?
Assim como eu e você muitos não tem pai,mas tenho certeza que um dia todos os filhos se encontrarão com seus pais, aí será uma festa.
Que Deus preencha sempre seu coração. Paz e Bem! Nice

Ana Maria disse...

Que grande e guerreiro pai você teve! Muito linda sua carta. Bom final de semana.

✿ chica disse...

Que linda e tão emocionante carta ao teu pai no dia de seu aniversário de saudades...

bjs, lindo fds! chica

Roselia Bezerra disse...

Boa tarde, querida Quel!
Nesta semana também postei um poema pro meu papai amado e saudoso...
A sua carta está linda!
Bjm muito fraterno

SÔNIA R.B. disse...

Quel, tudo bem?
Bela homenagem, através dessa carta.
Uma semana ótima.
bj

Déia Neves disse...


Que lindo Raquel, a saudade as vezes pode nos transportar para perto de quem amamos, porque o amor nunca morre. Bjos

ADRI disse...

Olá Quel!
Que carta emocionante!Homenagem linda a seu pai guerreiro.
de onde estiver deve estar orgulhoso de vc.
Bjo.

Isabel Ramalho disse...

Emocionante sua carta! Parabéns pela belíssima homenagem ao seu pai!
Bjs

Jéssica Lobo disse...

Que linda sua carta ♥ garanto que seu pai se emcionaria muito! Beijos!

Kelly Cristiane disse...

muito linda sua carta carregada de emoção e respeito, uma pena você ter perdido o seu pai assim, mas não se preocupe eu tenho certeza que ele vê o quanto você o ama.

Stylist Online disse...

Olá! que carta emocionante contando em parte dos últimos fatos e outros trechos falando da saudade e de sentir falta em alguns períodos, é bom ter esta alegria de saber que fizemos feliz as pessoas que amamos durante o período que elas estiveram conosco na terra. Forte abraço

Lais de Paula disse...

Linda sua carta.
Meu noivo tem insuficiência renal crônica e está na fila do transplante. Faz hemodiálise 3x na semana e só tem 24 anos.
Sei como você se sentia ao ver seu pai. Meu noivo, graças a Deus, não sofre tanto. Só tem que regular a alimentação e o líquido.
Ma tudo vai ficar bem.

WILDBELLES disse...

Que carta mais linda! Consigo ver o amor nela <3

Vivia Vitoria disse...

Seu pai foi um guerreiro <3 Me emocionei aqui .
Parabéns pela homenagem !

May Mariano disse...

Olá,
Não tenho a melhor relação do mundo com meu pai. Já não nos vemos a alguns anos. Ler isso me faz refletir demais!

Luana Souza disse...

Nossa, que emocionante! Achei maravilhosa essa ideia da cara de amor, e fico pensando o quão difícil deve ter sido pra você escrever algo do tipo. Eu nunca perdi alguém realmente próximo de mim, então não sei qual é a sensação exata, mas deve ser algo horrível!

Parabéns pelo texto/coragem :)

Maria Reciclona disse...

Querida Raquel.
Certamente, os carteiros designados de Deus já fizeram com que esta linda e emocionante carta chegasse às mãos de seu amado Pai.
A resposta já deve estar à caminho. E chegará em muitas páginas:
em flores que desabrocharão mais perfumadas pelo seu carinho;
em gotas de chuva que cairão em terrenos sedentos e então agradecidos;
em sorrisos de crianças que encontrão muito alegrias nos afagos de braços abençoados.
E você escutará palavras ditadas pelo seu coração. Serão sílabas de amor a transbordar motivadas pela alegria de seu pai.
Receba meu abraço. Até breve.